Viagem a São Jorge - GO
(Chapada dos Veadeiros)
(Chapada dos Veadeiros)
18 a 20/01/2016
Regimar
Wellington
CHAPADA, CHUVA E ESTRANHOS FENÔMENOS
Ao dobrar a curva, uso o intercomunicador para falar de minhas lembranças:
- Quando passei aqui pela última vez, tinha poucas casas, encobertas por alguns pés de manga
e muita poeira da estrada de terra! Acho que foi em 1989.
Regimar, na escuta, responde:
- E eu, quando vim aqui com a
Denise, antes de nascer o João Mauro, esse lugar era bem menor...
Desde que saímos de Brasília, poucos foram os trechos da
estrada que não tomamos chuva. Nossos equipamentos nos deram alguma proteção, mas não impediram que as luvas e
as botas do Regimar se encharcassem, nem que a minhas costas se molhassem um pouco.
Durante os 250
Km percorridos pelo asfalto, a atenção com as frenagens
e com o asfalto escorregadio exigiu que pilotássemos com muito
cuidado, pois do contrário a possibilidade de queda era grande.
Nas duas primeiras pousadas que procuramos em São Jorge, não havia vaga. Apenas na terceira pousada encontramos
disponível um apartamento com duas camas.
Na recepção, diversas
pessoas de nacionalidade japonesa, que se preparavam para excursionar pelas cachoeiras
da Chapada dos Veadeiros. Bermudas, coletes de fotógrafos (cheios de
bolsos), chapéus de diferentes tamanhos, tênis apropriados para as ladeiras, além das providenciais capas transparentes para chuva.
- Japonês é determinado!, exclamou Regimar. “Mesmo com chuva, os
caras não mudam os planos.”
Além dos japoneses, havia na recepção um
casal homossexual vendo TV. Pareciam em lua de
mel.
Na varanda, que dava para a rua, um casal falando francês encontrava-se sentado ao redor de uma mesa. Serviam-se de uma
garrafa de vinho e, freneticamente, cada um dedilhava no teclado
do seu celular.
Quando fomos estender nossas roupas molhadas sobre o varal
que improvisamos no alpendre de nosso apartamento, passou apressado um casal
heterossexual protegido por um guarda chuva estampado por flores de hortência.
E logo atrás deste casal, duas lindas jovens esgueiravam sorridentes sob as
poucas copas de árvores que as protegiam parcialmente da chuva fina e persistente.
Depois de um dia inteiro sob muita chuva e após um banho
quente, sentimo-nos revigorados para sair da pousada e procurar uma lanchonete, ainda sob chuva fina. Apesar de já anoitecer, passamos por onde se encontravam as motos para verificar se estava tudo OK, quando Regimar me alertou para o desgaste das pastilhas do freio dianteiro de
minha moto.
A caminho da lanchonete, mudamos de ideia ao ler o anúncio de
um bar: ”jantinha com vinagrete, feijão tropeiro, farinha, churrasquinho variado
e arroz, por 20 reais” Salivamos com a oferta e lembramos que nosso almoço naquele
dia fora fugaz! Portanto, precisávamos de algo “sustancioso” no jantar. Então
fomos à forra!
Antes de deixarmos o ambiente, ainda ouvimos do dono do bar
histórias da cidade. Ele nos relatou o quanto foi benéfico para os regionais a
proibição do garimpo de cristal e o início da exploração turística na Chapada. Disse-nos que o turismo criou perspectiva de emprego aos
habitantes da região e melhorou as condições de vida das pessoas.
- Hoje, eu tenho meu carrinho, tenho este comércio e até um
pedacinho de terra. Meus filhos estudam fora! E assim também sucede com
muitas outras pessoas daqui!
Assim que a chuva diminuiu, achamos que era a
oportunidade de retornamos à pousada. Havíamos caminhado uns 50 metros, desviando das
poças de água que se interpunham no nosso caminho, quando fomos surpreendidos
por um grande clarão de cor violeta esverdeado movendo-se sob o céu a baixa
altitude, a uma velocidade inferior a um raio, mas superior à de um jato. Olhamos um para o outro, cobrando-nos uma resposta para a pergunta óbvia: “o que é isto?”
Ao chegarmos à pousada, não havia luz, mas logo retornou. Então, observamos muitos hóspedes aglomerados
no hall da pousada. Os japoneses trocavam conversas intercalando o japonês com
o português. O casal de fala francesa recolheu a garrafa de vinho e rapidamente
foi para seus aposentos. O casal homossexual se aboletou sobre o balcão da
pousada pedindo para fechar a conta. E as duas jovens, que havíamos visto pela
manhã, riam estrondosamente, provocando desconforto nos demais. Eu e Regimar ainda aguardamos a televisão voltar a funcionar e depois
nos dirigimos para o nosso quarto.
São Jorge amanheceu estupefato! Todos os galos, galinhas,
pintinhos e frangos haviam amanhecido sem uma gota de sangue. Eram apenas penas
e pele. Infelizmente, alguns galináceos, não suportando a carência de
sangue, não escaparam do fatídico acontecimento da noite anterior!
Ouvimos dizer que as autoridades federais , estaduais e
municipais foram notificadas do ocorrido, assim como a Aeronáutica, que não se manifestou.
Ao meio-dia (de relógio!) formou-se forte tempestade. O
céu escureceu como se fosse noite e todas as luzes dos postes de São Jorge se acenderam. Repentinamente, surgiu o mesmo clarão
violeta esverdeado da noite anterior, movendo-se sob o céu, a baixa altitude, em velocidade inferior a um raio, mas superior a um jato.
Não sei precisar quanto tempo durou a escuridão que abateu sobre São Jorge, nem quanto tempo durou o clarão violeta esverdeado. Mas assim que passou a intercorrência, surgiram de todos os cantos, todas as ruas, de todos os becos de São Jorge, cães e gatos sem uma gota de sangue. Era um cenário terrível! Havia cães desfalecidos nas soleiras dos botecos, gatos anêmicos sobre os telhados das casas, crianças carregando os animais mais debilitados. “Cenário de guerra!” exclamavam alguns. Três turistas (politicamente corretos) sugeriram que fossem armadas tendas para coleta de sangue para socorrer os animais.
Não sei precisar quanto tempo durou a escuridão que abateu sobre São Jorge, nem quanto tempo durou o clarão violeta esverdeado. Mas assim que passou a intercorrência, surgiram de todos os cantos, todas as ruas, de todos os becos de São Jorge, cães e gatos sem uma gota de sangue. Era um cenário terrível! Havia cães desfalecidos nas soleiras dos botecos, gatos anêmicos sobre os telhados das casas, crianças carregando os animais mais debilitados. “Cenário de guerra!” exclamavam alguns. Três turistas (politicamente corretos) sugeriram que fossem armadas tendas para coleta de sangue para socorrer os animais.
Mais uma vez, a liderança da cidade reiterou o
apelo de intervenção às autoridades federais, estaduais e municipais, mas até
as 18 horas (no horário de verão) não haviam obtido respostas.
Desde o evento anterior, as pessoas mantinham a cabeça voltada para o céu, atitude que provocou problemas ortopédicos, pois o número de pessoas acometidas por torcicolo causou desabastecimento de bálsamo de benguê, iodex , iodofix, arnica e
similares no comércio da cidade. Inúmeros foram os casos de pessoas
chocando-se umas com as outras ou caídas nos buracos das ruas (e como havia buracos nas ruas!).
Felizmente, não houve acidente
entre os carros que se encontravam na cidade, dado que as pessoas não conseguiam
entrar em seus veículos e ao mesmo tempo manterem os olhos fixos nas alturas. Como de costume nestas terras da “Lei de Gerson”, surgiu alguém disponibilizando
colares cervicais a 600 Reais cada, assegurando que o
instrumento ou acessório oferecia melhor conforto, segurança e visibilidade para observar o que viesse ocorrer nos céu de São
Jorge.
Ao anoitecer (depois das 19 horas, no horário de verão) um
grupo vestido à moda hippie (calças largas e coloridas, cabelos black power e rastafári, sandálias de couro, ornamentados com fitas coloridas,
brincos e piercigs em diversas partes do corpo) se reuniu na praça em forma de “ponta
de picolé”, para anunciar que em breve cairia sobre todos que se encontravam em
São Jorge o vírus Zilma Zica Rouset, transportado na espaçonave prefixo PT 171 e
cuja conseqüência imediata seria destituir dos bolsos, bolsas, alforjes,
mochilas e malas de todos os presentes em São Jorge qualquer valor, em
moedas ou células.
Regimar e eu não esperamos para ver. Acordamos bem cedo, pagamos as diárias, pegamos duas garrafas de água mineral, verificamos se a gasolina de nossas
motos não havia sido abduzida e partimos com a Yamaha e a Harley, driblando os buracos das ruas.
Ao alcançar o asfalto da rodovia, estávamos ainda na expectativa do alívio, quando mais uma vez fomos surpreendidos. Incrédulos, fixamos o olhar no retrovisor, que teimava em nos mostrar um
pobre cão, no acostamento, acenando agitadamente uma das patas para nós.
Escrito por Wellington Figueiredo





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