quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

SÃO JORGE - GO


Viagem a São Jorge - GO 
(Chapada dos Veadeiros)
18 a 20/01/2016 


 Regimar

Wellington







CHAPADA, CHUVA E ESTRANHOS FENÔMENOS 

 Ao dobrar a curva, uso o intercomunicador para falar de minhas lembranças:
- Quando passei aqui pela última vez, tinha poucas casas, encobertas por alguns pés de manga e muita poeira da estrada de terra! Acho que foi em 1989.
Regimar, na escuta, responde:
- E eu, quando vim aqui com a Denise, antes de nascer o João Mauro,  esse lugar era bem menor...
Desde que saímos de Brasília, poucos foram os trechos da estrada que não tomamos chuva. Nossos equipamentos nos deram alguma proteção, mas não impediram que as luvas e as botas do Regimar se encharcassem, nem que a minhas costas se molhassem um pouco.
Durante os 250 Km percorridos pelo asfalto, a atenção com as frenagens e com o asfalto escorregadio exigiu que pilotássemos com muito cuidado, pois do contrário a possibilidade de queda era grande.
Nas duas primeiras pousadas que procuramos em São Jorge, não havia vaga. Apenas na terceira pousada encontramos disponível um apartamento com duas camas. 
Na recepção, diversas pessoas de nacionalidade japonesa, que se preparavam para excursionar pelas cachoeiras da Chapada dos Veadeiros. Bermudas, coletes de fotógrafos (cheios de bolsos), chapéus de diferentes tamanhos, tênis apropriados para as ladeiras, além das providenciais capas transparentes para chuva. 
- Japonês é determinado!, exclamou  Regimar. “Mesmo com chuva, os caras não mudam os planos.”
Além dos japoneses, havia na recepção um casal homossexual vendo TV. Pareciam em lua de mel.
Na varanda, que dava para a rua, um casal falando francês encontrava-se sentado ao redor de uma mesa. Serviam-se de uma garrafa de vinho e, freneticamente, cada um dedilhava no teclado do seu celular.
Quando fomos estender nossas roupas molhadas sobre o varal que improvisamos no alpendre de nosso apartamento, passou apressado um casal heterossexual protegido por um guarda chuva estampado por flores de hortência. E logo atrás deste casal, duas lindas jovens esgueiravam sorridentes sob as poucas copas de árvores que as protegiam parcialmente da chuva fina e persistente.
Depois de um dia inteiro sob muita chuva e após um banho quente, sentimo-nos revigorados para sair da pousada e procurar uma lanchonete, ainda sob chuva fina. Apesar de já anoitecer, passamos por onde se encontravam as motos para verificar se estava tudo OK, quando Regimar me alertou para o desgaste das pastilhas do freio dianteiro de minha moto.
A caminho da lanchonete, mudamos de ideia ao ler o anúncio de um bar: ”jantinha com vinagrete, feijão tropeiro, farinha, churrasquinho variado e arroz, por 20 reais” Salivamos com a oferta e lembramos que nosso almoço naquele dia fora fugaz! Portanto, precisávamos de algo “sustancioso” no jantar. Então fomos à forra!
Antes de deixarmos o ambiente, ainda ouvimos do dono do bar histórias da cidade. Ele nos relatou o quanto foi benéfico para os regionais a proibição do garimpo de cristal e o início da exploração turística na Chapada. Disse-nos que o turismo criou perspectiva de emprego aos habitantes da região e melhorou as condições de vida das pessoas. 
- Hoje, eu tenho meu carrinho, tenho este comércio e até um pedacinho de terra. Meus filhos estudam fora! E assim também sucede com muitas outras pessoas daqui!
Assim que a chuva diminuiu, achamos que era a oportunidade de retornamos à pousada. Havíamos caminhado uns 50 metros, desviando das poças de água que se interpunham no nosso caminho, quando fomos surpreendidos por um grande clarão de cor violeta esverdeado movendo-se sob o céu a baixa altitude, a uma velocidade inferior a um raio, mas superior à de um jato. Olhamos um para o outro, cobrando-nos uma resposta para a pergunta óbvia: “o que é isto?”
Ao chegarmos à pousada, não havia luz, mas logo retornou. Então, observamos muitos hóspedes aglomerados no hall da pousada. Os japoneses trocavam conversas intercalando o japonês com o português. O casal de fala francesa recolheu a garrafa de vinho e rapidamente foi para seus aposentos. O casal homossexual se aboletou sobre o balcão da pousada pedindo para fechar a conta. E as duas jovens, que havíamos visto pela manhã, riam estrondosamente, provocando desconforto nos demais. Eu e Regimar ainda aguardamos a televisão voltar a funcionar e depois nos dirigimos para o nosso quarto.
São Jorge amanheceu estupefato! Todos os galos, galinhas, pintinhos e frangos haviam amanhecido sem uma gota de sangue. Eram apenas penas e pele. Infelizmente, alguns galináceos, não suportando a carência de sangue, não escaparam do fatídico acontecimento da noite anterior!
Ouvimos dizer que as autoridades federais , estaduais e municipais foram notificadas do ocorrido, assim como a Aeronáutica, que não se manifestou.
Ao meio-dia (de relógio!) formou-se forte tempestade. O céu escureceu como se fosse noite e todas as luzes dos postes de São Jorge se acenderam. Repentinamente, surgiu o mesmo clarão violeta esverdeado da noite anterior, movendo-se sob o céu, a baixa altitude, em velocidade inferior a um raio, mas superior a um jato. 
Não sei precisar quanto tempo durou a escuridão que abateu sobre São Jorge, nem quanto tempo durou o clarão violeta esverdeado. Mas assim que passou a intercorrência, surgiram de todos os cantos, todas as ruas, de todos os becos de São Jorge, cães e gatos sem uma gota de sangue. Era um cenário terrível! Havia cães desfalecidos nas soleiras dos botecos, gatos anêmicos sobre os telhados das casas, crianças carregando os animais mais debilitados. “Cenário de guerra!” exclamavam alguns. Três  turistas (politicamente corretos) sugeriram que fossem armadas tendas para coleta de sangue para socorrer os animais.
Mais uma vez, a liderança da cidade reiterou o apelo de intervenção às autoridades federais, estaduais e municipais, mas até as 18 horas (no horário de verão) não haviam obtido respostas.
Desde o evento anterior, as pessoas mantinham a cabeça voltada para o céu, atitude que provocou problemas ortopédicos, pois o número de pessoas acometidas por torcicolo causou desabastecimento de bálsamo de benguê, iodex , iodofix, arnica e similares no comércio da cidade. Inúmeros foram os casos de pessoas chocando-se umas com as outras ou caídas nos buracos das ruas (e como havia buracos nas ruas!). 
Felizmente, não houve acidente entre os carros que se encontravam na cidade, dado que as pessoas não conseguiam entrar em seus veículos e ao mesmo tempo manterem os olhos fixos nas alturas. Como de costume nestas terras da “Lei de Gerson”, surgiu alguém disponibilizando colares cervicais a 600 Reais cada, assegurando que o instrumento ou acessório oferecia melhor conforto, segurança e visibilidade para observar o que viesse ocorrer nos céu de São Jorge.
Ao anoitecer (depois das 19 horas, no horário de verão) um grupo vestido à moda hippie (calças largas e coloridas, cabelos black power e rastafári, sandálias de couro, ornamentados com fitas coloridas, brincos e piercigs em diversas partes do corpo) se reuniu na praça em forma de “ponta de picolé”, para anunciar que em breve cairia sobre todos que se encontravam em São Jorge o vírus Zilma Zica Rouset, transportado na espaçonave prefixo PT 171 e cuja conseqüência imediata seria destituir dos bolsos, bolsas, alforjes, mochilas e malas de todos os presentes em São Jorge qualquer valor, em moedas ou células.
Regimar e eu não esperamos para ver. Acordamos bem cedo, pagamos as diárias, pegamos duas garrafas de água mineral, verificamos se a gasolina de nossas motos não havia sido abduzida e partimos com a Yamaha e a Harley, driblando os buracos das ruas. 
Ao alcançar o asfalto da rodovia, estávamos ainda na expectativa do alívio, quando mais uma vez fomos surpreendidos. Incrédulos, fixamos o olhar no retrovisor, que teimava em nos mostrar um pobre cão, no acostamento, acenando agitadamente uma das patas para nós.

Escrito por Wellington Figueiredo  


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