segunda-feira, 22 de setembro de 2014

CIRCUITO NORTE DE MINAS


VIAGEM EM JULHO/AGOSTO DE 2012
Pirapora, Montes Claros, Januária, Vale do Jequitinhonha e Mucuri (Diamantina)
com passagem pelo Encontro de Motos em Três Marias
(Clique nas imagens para ver no tamanho original)








SOBRE O DORSO DAS MOTOS PELAS GERAIS

O sol havia abdicado do seu calor desde ás três horas da tarde. Então se podia focá-lo sem franzir o cenho para observar um encarnado plácido a irradiar de amarelo, de rosa, de chumbo claro as poucas nuvens que sobrancelheavam o horizonte muito além do São Francisco, Velho Chico! Encostamos as motos sobre o calçadão de Pirapora e fomos até o balaustre do cais ouvir de perto o barulho surdo que as águas arrancavam das pedras semi-submersas. Pirapora! Pirapora de companheira, cúmplice, esposa? À noite, enovelando a garrafa de cerveja, soprou o ar leve, meio friozinho, vindo do São Francisco. Lingüiça mineira com boa conversa! À noite, o rumor continuado das águas do rio, encobriu nosso sono. Manhã de Sol! Rumo Norte. Sol e o agreste. Paisagem retorcida. A sumir no horizonte o rastro do asfalto é o guia! A cor marrom da vegetação esquálida pela carência de chuva somente é alterada pelas poucas casas brancas, azuis, amarelas... da beira de estrada. Paredões de pedras cinza formam escarpas íngremes. Nestes morros rusticidade, determinismo e falta de umidade rejeitam arvores e gramíneas esverdeadas. Januária. Ah, Januária! Januária de amor amante, de cabelos negros e longos?  No meio do Velho Chico alteia o dorso de areia para ser pisado, para ser deitado, para ouvir confidências, para ouvir musica e para beber cerveja sob barracões cobertos por palha seca. Na borda da areia fina, desnuda o São Francisco à espera do corpo seminu. À noite; torresmo, feijão tropeiro, ovo frito, galinha caipira, costelinha de porco e arroz branco. Complemento? Longos sorrisos, boas piadas e frias lambidas de sorvete. Pelas ruas de paralelepípedos, poucos carros, muitos transeuntes. Fiéis que retornam da igreja, jovens que se amontoam na praça. Luzes sonoras de celulares, conexão de internautas. Manhã nublada. Abastecimento das motocicletas. O vento forte perpendicularmente à estrada e o horizonte a pino leva à Itacarambi. Para salvaguardar os pedestres o aviso: “Multa de 20 reais para quem transitar de bicicleta pela calçada”. Em Itacarambi o Velho Chico desce manso, quase lascivo. Das motos sorrimos para ele. O velho Chico a balouçar suas águas se despede de nós! Fim do asfalto início do retorno. Do alto, pelos retrovisores, reflexos brilhantes de Montes Claros. Buzinas, caminhões pesados, semáforos, agencias de carros, muitos carros! Pujança econômica na Região! Na Praça de Bocaiúva cachorro vira-lata não leva chute, tem celular com câmera como testemunha. Manha fria.  Da região aonde prevalecem terrenos planos, as motos urram para serpentearem as montanhas altas, enquanto nossos olhares alcançam os picos distantes e os vales longínquos. Vales do Jequitinhonha! A imensidão das alturas altera a alma e chamusca com lembranças prazeres esquecidos. Lá do vale o serpentear dos rios e dos riachos faz emergir ardência de aventuras futuras. Flores miúdas, retorcidas e de cores pastéis, mineiramente tímidas, contrastam com o áspero do asfalto negro, liso, uniforme e inerte. Do alto do cruzeiro, plantado em pedra enegrecida, avista-se Diamantina firmemente agarrada nas escarpas íngremes. Que músculos titânicos conseguiram atapetar de pedra a cidade? Que amores cálidos ou ardorosos subiram e desceram tantas ladeiras? Quanto de ouro e de diamante esconderam os casarões? Diamantina! Chica da Silva! Do frio diamantino à represa de Três Marias. Amansaram o Velho Chico! Gordo, largo, deitado sobre solo profundo consegue somente beliscar as beiradas da terra. À noite os Tubarões do Velho Chico (clube de motociclismo) instigam motociclistas e motos a acendem a fogueira indelével do rock. Jaquetas de couros, bótons reluzentes, bandanas, anéis de caveira, transgridem fora das urbes sob a complacência do rio São Francisco e o instigam a saltar por sobre o concreto. Pela manhã depois da noite de sono mergulhante, emerge o dia com sol forte e secura gritante; a estrada conduz a Brasília.  

Escrito por: Wellington Gomes Figueiredo



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