Viagem de Brasília a Belém.
Três Comdor'es participam desta aventura: Wellington e Regimar vão até Belém e retornam, enquanto Afonso segue sozinho a partir da capital paraense.
(Viagem iniciada em 1/5/2015)
Escrito por Wellington Figueiredo
A manhã achava-se fria quando
deixamos São João de Aliança (GO). Faltavam 157 km para que eu e Regimar
chegássemos a Brasília. Havíamos percorridos 4.893 km de motocicleta durante 14
dias, sob um sol forte, entremeados por chuvas ocasionais. Passamos pelo Estado
de Goiás ( Alto Paraíso, Campos Belos... ), cruzamos Tocantins em sua parte
oriental (Natividade, Palmas, Fortaleza do Tabocão...), cortamos o Sudoeste do
Maranhão (Carolina, Riachão, Imperatriz...) e fomos até Salinópolis, onde o Atlântico
encosta no norte do Pará. No caminho de volta, passamos por Belém.
De Belém, prosseguimos pelo Leste do Pará, passando por
Tailândia e Moju. Prosseguindo, cruzamos o rio Araguaia em uma balsa e
aportamos nossas motocicletas no solo da cidade de Xambioá (neste périplo fomos
obrigados a utilizar balsa por três vezes).
Afonso, que ficara em Belém, embarcaria com sua moto, uma Harley
Davidson 883, com destino a Manaus.
Em Belém, depois de cruzarmos toda a cidade, nós três fomos
almoçar em um dos restaurantes que se alinham nas Docas do porto da cidade, às
margens do rio Amazonas. Brindamos nossos dias passados juntos (“sem uma
briga!” citação do Afonso) e também nossa separação, pois Regimar e eu
seguiríamos pelo asfalto que nos retornaria ao Centro-Oeste do Brasil, enquanto
Afonso subiria de barco pelo rio Amazonas até Manaus.
Em Belém, ponto de separação entre nós, já borbulhavam em
nossas mentes as lembranças do aconchego familiar. Regimar talvez pensando em reencontrar
João Mauro e Denise; em mim volitava o desejo de reencontrar com a Hilda e meus
filhos (Ayana, Francisco e Eliza) e, na mente do Afonso, talvez povoasse a
ansiedade para rever os netos e compartilhar com eles (Brenda, Afonso Neto e
Afonso Lucas) o bilboquê e o pião, levados de Goiânia. Mas temos de admitir,
antes que esses presentes fossem entregues aos netos do Afonso, eles reacenderam
nossa infância ao jogarmos bilboquê nos quartos dos hotéis nos quais nos
hospedamos.
Quando subimos em nossas motos em Brasília (o Regimar com
uma Yamaha Midnight 950, eu e Afonso com nossas Harley 883), portávamos a
confiança que elas nos levariam até Salinópolis, mas não imaginávamos
acompanhar os contornos e os azuis longínquos das serras que segregam as águas
do Tocantins das águas do Araguaia, nem nos ocupamos em atinar as pessoas com
quem trocaríamos risos, histórias e informações. Nem havíamos previsto quão
agradável seria abandonar nossos corpos às águas que escorregam pelos
penhascos, grutas e socavões que acercam Carolina (MA). Nem mensuramos a
extensão dos plantios de soja que avançam pelo sul do Maranhão e pelos kms e kms
de palmeiras de dendê que ladeavam a estrada no município de Tailândia (PA).
Constatamos que nas regiões por onde passamos a crise
econômica também já chegou; vimos uma enorme quantidade de carretas que retornam
ao Sul do país sem carga alguma. Ouvimos reclames de vendedores que percorrem a
região tentando colocar seus produtos e não encontram comerciantes dispostos a
fazerem pedidos de mercadorias. Ouvimos de jovens a vontade de migrarem para os
grandes centros urbanos à procura de emprego e, dos mais velhos, era ressonante
a voz da descrença:”esse país não tem jeito mesmo!”.
Em Imperatriz (MA), onde
pernoitamos, percebi a emoção do Afonso ao passar pelo quartel do Exército na
cidade, onde se via um grupo de soldados perfilados.
Nas paradas para descanso, abastecimento e almoço, sempre estiveram
presentes as saudações, os elogios e a admiração dos que nos acercavam para
enaltecer o desprendimento em subirmos nas nossas motocicletas, para deixar a
vida correr solta e livre ao vento que guardeia as estradas.
Os dias quentes que antecederam nossa chegada a Salinópolis
foram substituídos pela brisa assobiante do mar do norte do Pará, pelo cheiro
de maresia, pela areia fina e firme, levemente acinzentada, da praia do
Atalaia.
Em Moju e São Miguel do Guamá ficou nítida a variedade de
brasis que existe neste País. Lá, motocicleta foi feita para carregar mais de
três pessoas, e motociclista não usa capacete (por algum momento ficou-me a dúvida:
aqui é proibido usar capacete?!).
Tenho a impressão de que, nos jovens que nos viram pelas
estradas, despertamos sonhos e, nos mais velhos, realizamos seus desejos de
liberdade e aventura não concretizados. É, como me disse o Zé Ricardo Zani:
“depois de fazer uma viagem dessas, somos punidos pelo desejo e a vontade de
viver intensamente nossa existência!” E, de preferência, sobre duas rodas!
(Wellington)
Nota do Editor: A partir de Belém, Afonso continuou a viagem de barco, em direção a Manaus. Dias depois, ao sentir dores na coluna cervical, por recomendação médica decidiu adiar o plano de chegar às fronteiras da Guiana e Venezuela.
Da esquerda para dir: Wellington, Regimar e Afonso.

Comando Militar da Amazônia
Rio Tocantins - Orla de Marabá, no Pará.



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